📝 A Escola Centro-Oeste de Formação Sindical da CUT Apolônio de Carvalho
Por César Azevedo – Educador ECO/CUT
1. A Criação, Implantação e Consolidação da ECO/CUT
A discussão para implantação de uma Escola Sindical na Região Centro Oeste teve início em 1990, quando os dirigentes das CUT’s se reuniram em Goiânia e decidiram iniciar os trabalhos para a criação da Escola. Assim, em junho de 1992 os dirigentes da região assumiram o compromisso da fundação da Escola Centro Oeste de Formação Sindical da CUT – ECO/CUT e foi criado um Conselho Político para coordenar todo o processo. Inicialmente realizaram-se Seminários de Sensibilização nos Estados e no Distrito Federal, onde se debatia as prioridades formativas, os indicativos de sustentação financeira e traçar uma Concepção Política da Escola reafirmando os seguintes pontos: a) Refletir a pluralidade da CUT, respeitando as diversidades e colocando-se acima das tendências políticas; b) Ser acessível e próxima da realidade dos trabalhadores e trabalhadoras, propiciando a realização de um diagnóstico do movimento sindical e dos desenvolvimento político, social e econômico da região, sendo espaço de reflexão dos desafios do sindicalismo regional e de elaboração de propostas de atuação; c) Aglutinar as várias experiências de formação promovidas pelos sindicatos e pela CUT’s, estimulando o intercâmbio entre as SEFs e incentivando a sua organização onde não existirem; d) Trabalhar com uma metodologia pedagógica que considere a experiência dos trabalhadores e trabalhadoras, encarando-os como sujeito da sua própria formação, através da possibilidade da elaboração e não somente da reprodução do conhecimento; e) Definir como eixos temáticos prioritários a formação para os trabalhadores e trabalhadoras do setor público e estatais e os trabalhadores rurais, além das prioridades nacionais que respondam às necessidades regionais.
A implantação da ECO/CUT e a consolidação das suas ações em 1993 propiciou a construção de uma prática de diálogo mais intenso na região, articulando os dirigentes sindicais na construção de um projeto regional e nacional de formação que atendesse às características locais, mantendo sempre o vínculo com a Rede Nacional de Formação da CUT. Dentre dos principais objetivos, nos colocamos na perspectiva da construção de uma identidade da região Centro Oeste a partir da lógica dos trabalhadores e trabalhadoras e a consolidação da Política Nacional de Formação da CUT, que por sua vez, consegue traduzir as ansiedades da população brasileira (educação, trabalho, desenvolvimento sustentável, distribuição de renda, organização local) em seus diversos programas e projetos.
Em 1997, com a intenção de centralizar as ações e atividades formativas, facilitando o acesso dos companheiros e companheiras sindicalistas e educandos e educandas, a Sede da ECO/CUT foi transferida para a Goiânia/GO tornando assim a Escola mais centralizada e proporcionando a construção de uma sede com espaço e instalações necessárias para atender as demandas da formação da região. E em 2012, a ECO/CUT, ao celebrar os seus 20 anos e concomitante às celebrações do Centenário de Apolônio de Carvalho, um sul mato grossense, reconhecido por ser um bravo militante de esquerda, revolucionário internacionalista e um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores, a Coordenação Executiva da ECO/CUT decide homenagear Apolônio de Carvalho, o tornando patrono da Escola e passando a se chamar “Escola Centro Oeste de Formação Sindical da CUT Apolônio de Carvalho”.
A Pedagogia do Cerrado no Contexto da Luta de Classes
A ECO/CUT é fruto de um processo histórico que se iniciou com a necessidade de construir uma unidade de concepções e princípios de luta da classe trabalhadora e que levasse em consideração as diversidades regionais, mas que também considerasse o princípio classista da CUT. Todo esse processo traz em sua essência a concepção de uma educação integral dos trabalhadores e trabalhadoras, como princípio educativo, onde a formação deve contemplar as dimensões social, política, cultural e técnica, abrangendo a educação informal e formal, buscando continuamente o reconhecimento social e institucional do saber acumulado pelos trabalhadores e trabalhadoras, para que participem dos processos políticos de intervenções junto às suas categorias e a sociedade de forma geral.
Neste sentido, a ECO/CUT vem, ao longo de seus 29 anos de atuação nos estados do Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Tocantins, Goiás e no Distrito Federal, desenvolvendo iniciativas e experiências formativas com o objetivo do fortalecimento e consolidação do Plano Nacional de Formação da CUT através de um conjunto de ações educativas e dos mais diversos programas formativos que conduzem os trabalhadores e trabalhadoras a constantes debates e uma sistemática reflexão não só sobre a formação sindical, mas também sobre a construção de um modelo de desenvolvimento nacional e regional, a transformação da sociedade, o fortalecimento da consciência classista e da unidade da CUT com seus princípios e concepções.
Assim, a capacidade multiplicadora e potencializadora da ação formativa da ECO/CUT, vêm rompendo as barreiras da formação sindical e da formação política à medida que abrange em suas práticas formativas e pedagógicas a observação da condição humana, os compromissos com a sociedade, a valorização dos saberes e do conhecimento popular, as novas dimensões e perspectivas do trabalho, a formação integral do (a) trabalhador (a), a luta de classe e especialmente a reflexão sobre uma educação popular e libertadora.
Por isso, é importante destacar que a construção social e coletiva do conhecimento daqueles e daquelas sindicalistas que passaram pela formação ECO/CUT contribuíram com construção de uma proposta pedagógica que denominamos de “Pedagogia do Cerrado”. A concepção de “Pedagogia do Cerrado” vai além de uma frase de efeito para expressar uma identidade regional à qual estamos ligados por meio do bioma natural que se faz presente em todos os nossos estados e no Distrito Federal, trata-se do resultado do acúmulo de experiências pedagógicas que proporcionaram um conjunto de procedimentos metodológicos e referenciais teóricos baseados na conexão de saberes existentes nos espaços formativos da Escola Sindical. Ela é, de certa forma, a identidade da CUT na Região Centro Oeste e que reflete a luta da classe trabalhadora na relação Capital X Trabalho numa perspectiva da cultura política, ambiental, econômica, educacional, entre outras dimensões sociais que marcam o “povo cerradeiro”. (Ubiratan Francisco de Oliveira, Geógrafo, Professor Doutor da UFT, ECO/CUT, 2016).
A nossa concepção e a nossa atuação sindical, muito influenciada e referenciada nos sonhos, nas lutas e na trajetória de Apolônio de Carvalho, nas experiências e vivências pedagógicas dos mais diversos atores sociais: sindicalistas cutistas, trabalhadores e trabalhadoras rurais dos territórios, pessoas e empreendimentos de economia solidaria – em uma conjuntura política e econômica conservadora e centrada no agronegócio explorador e devastador do meio ambiente, tem possibilitado a articulação, a reflexão e a construção coletiva de saberes comuns ligados às identidades, às lutas e às pautas regionais e locais do cerrado e do pantanal que ao longo da nossa história vem constituindo uma identidade pedagógica própria que hoje de forma mais abrangente denominamos de “A Pedagogia do Cerrado no Contexto da Luta de Classes”. (Sueli Veiga Melo, Coordenadora Geral da ECO/CUT, ECO/CUT, 2016).
A Nossa Formação Sindical
A ECO/CUT, vem desenvolvendo ao longo dos últimos anos, as ações do Plano Nacional de Formação da CUT – PNF/CUT e realizando atividades regionais voltadas principalmente para a formação formadores(as) e formação de dirigentes da região Centro Oeste, em conjunto com as CUT’s Estaduais da região levando em consideração as ações da Política Nacional de Formação da CUT.
Programa de Formação de Formadores (Inicial e Continuado):
- Cursos de Formação de Formadores – FF Inicial e Continuado.
Programas de Formação de Dirigentes:
- Cursos do ALICERCE (antigo ORSB);
- Cursos de Negociação e Contratação Coletiva – NCC;
- Programa de Desenvolvimento, Políticas Públicas e Ação Regional – DPPAR;
- Formação de Dirigentes Avançado – FDA – Pós Graduação em parceria da CUT com a Escola do Trabalho do DIEESE.
Programa de Formação com o Sindicato dos Professores do Distrito Federal – SINPRO/DF:
- Cursos de Formação Básico (3 módulos);
- Cursos de Formação Avançado (5 módulos);
- Cursos de Formação para Professores e Professores Aposentados (Curso de 4 dias e Seminários).
Além de desenvolver uma extensa agenda formativa, dentre as quais destacamos: planejamentos estratégicos para as entidades sindicais da região, seminários, palestras, oficinas, encontros, assessorias em congressos, reuniões, processos eleitorais e várias outras atividades com os sindicatos, CUT’s estaduais, movimentos sociais, escolas e universidades.
Formação em Desenvolvimento Territorial e apoio às Mulheres Rurais e Quilombolas
No período de 2008 a 2013, a ECO/CUT ampliou sua atuação para além do movimento sindical, passando a atuar na formação com os Territórios Rurais e de Cidadania, com uma parceria com a Secretaria de Desenvolvimento Territorial – SDT/MDA do Ministério do Desenvolvimento Agrário, para desenvolver o Programa de Ações Territoriais nos Territórios Rurais e de Cidadania do Estado de Goiás, Minas Gerais e Distrito Federal, realizando atividades de formação, como cursos, seminários, oficinas e assessorias voltadas para as políticas territoriais e a e elaboração, revisão e qualificação dos Planos Territoriais de Desenvolvimento Rural Sustentável – PTDRS. Em 2014, foi selecionada e firmou Convênio com à Diretoria de Políticas para as Mulheres Rurais e Quilombolas – DPMR/MDA do Ministério do Desenvolvimento Agrário para a realização de diversos cursos, oficinas, assessorias e apoio às Mulheres no desenvolvimento territorial nos Territórios da Cidadania do Vale do Paranã, Chapada dos Veadeiros e Águas Emendadas em Goiás e DF, Da Reforma em Mato Grosso do Sul e Baixada Cuiabana em Mato Grosso, com o objetivo promover apoio às Mulheres no desenvolvimento territorial com perspectiva de gênero por meio do fortalecimento da participação nos espaços de gestão social, bem como, no estímulo à sua auto-organização.
Formação e Articulação de Ações em Economia Solidária
Uma outra frente de ação, muito importante para a região e que envolveu mais de seis mil participantes, foi a formação em Economia Solidária, por meio de dois convênios celebrados entre a Secretaria Nacional de Economia Solidária – SENAES do Ministério do Trabalho e Emprego, um realizado no período de 2009 a 2012, cujo objetivo principal era o de promover a formação de formadores(as), educadores(as) e gestores(as) públicos que atuam com economia solidária e a segunda etapa do convênio, executado entre 2012 e 2016, com a finalidade de executar as ações e com a meta de implantação e manutenção da Rede de Centros de Formação em Economia Solidária na Região Centro-Oeste – Rede CFES-C.O e, por meio dela, além de fazer a formação em economia solidária, articular a rede de educadores(as), entidades de apoio e gestores, sistematizar as experiências, elaborar materiais pedagógicos e disseminar conhecimentos em economia solidária.
Desafios e Perspectivas para os Próximos Anos
Em tempos de pandemia de Covid-19, a ECO/CUT não parou as suas atividades, enfrentou o desafio de da continuidade dos processos formativos na região, articulando os coletivos de formação nos estados, construindo ações formativas virtuais (webinários, reuniões, debates, assembleias) e articulando os (as) dirigentes e trabalhadores e trabalhadoras para participação nas atividades da Rede Nacional de Formação (Curso da Plataforma Digital, ENAFOR, Projeto da Juventude CUT/DGB, Ciclo de Debates Quartas-Freireanas, Seminário Regional de Segurança e Direitos Humanos e demais atividaes). Nesse período vimos também o agravamento da realidade regional que vivemos no Centro Oeste, uma realidade complexa de concentração de terras, do agronegócio que explora, envenena, mata, e da violência no campo, da luta pela demarcação de terras indígenas, juntamente com a constante retirada de direitos da classe trabalhadora e somado ao contexto de baixo índice de sindicalização (somente 370 sindicatos na região), que fez com que a ECO/CUT reafirme os seguintes desafios:
- Reafirmar a nossa pedagogia regional: “’A Pedagogia do Cerrado no Contexto das Lutas de Classe”, a importância da formação regional realizada pela ECO/CUT e o seu papel fundamental para o movimento sindical e para as CUT’s da região;
- Dar continuidade as atividades da PNF/CUT participando, articulando e mobilizando as atividades, programas e projetos da Rede Nacional de Formação da CUT;
- Contribuir com as reflexões e ações para a ampliação das filiações, na tentativa de trazer as categorias tradicionais e ampliar as bases com os “novos” trabalhadores(as);
- Ampliar os espaços de participação dos trabalhadores(as) rurais, do setor privado, das mulheres, jovens, pessoas com deficiência, homossexuais e indígenas;
- Articular, criar e organizar um Observatório dos Trabalhadores e Trabalhadoras que possibilite um levantamento de dados econômicos e sociais para subsidiar o movimento sindical da região e propondo reflexões sobre o desenvolvimento regional, sustentabilidade, ampliação dos processos de filiação, sindicalização e mais interlocução com as bases sindicais;
- Buscar parcerias/projetos com entidades e demais movimentos (Economia Solidária e Territórios Rurais e da Cidadania);
- Apoiar as CUT’s e Sindicatos da Região na realização da formação de base, na articulação e mobilização para as ações da Rede Nacional de Formação e na realização das Plenárias;
- Dar continuar às atividades virtuais, na defesa da vacina para todos e todas, até que a pandemia esteja controlada e que possamos retomar com segurança às atividades presenciais.
Bibliografia Consultada:
Revista Forma e Conteúdo nº 05, Secretaria Nacional de Formação – São Paulo: CUT, 1993.
Revista Forma e Conteúdo nº 06, Secretaria Nacional de Formação – São Paulo: CUT, 1994.
Revista Forma e Conteúdo nº 10, Secretaria Nacional de Formação – São Paulo: CUT, 2000.
Revista A Pedagogia do Cerrado nº 01, ECO/CUT, 2011.
Revista A Pedagogia do Cerrado nº 03, ECO/CUT, 2016.